Nó na garganta

A ignorância é uma benção.

Quando eu não sabia que era capaz de ser mais feliz e realizada, a vida seguia sem grandes sobressaltos. Tinha momentos de tristeza, é verdade, mas a resignação de ser uma pessoa “normal” sempre sobrepunha qualquer ímpeto de mudança.

A vida era boa.

De repente, a vida começou a parecer cinza, os dias já não eram como antes e eu passei a me sentir minguada. Sim, passei a me sentir, porque as pessoas mais próximas já viam e sentiam antes de mim. Sou transparente, quase impossível não me decifrar.

Senti um nó na garganta e consegui me libertar.

Não foi um processo fácil, mas a partir daí, enxerguei a força que havia dentro de mim e que gritava não apenas por liberdade, mas por uma VIDA PLENA.

E a vida plena despontou quando me esvaziei de tudo e me enchi de mim.

Quando não liguei mais para a opinião alheia, quando os julgamentos passaram a me incomodar menos.

Quando “louca” soou como elogio e não mais como xingamento.

Quando provei o gostinho de ser simplesmente EU.

Isenta de interferências ou influências externas.

As viagens sozinha vieram atestar a capacidade de gerenciar minha própria vida.

Por vários meses eu sabia exatamente o que queria, estava determinada a ter uma vida incrível.

Me enchi de conteúdo de autoconhecimento e psicologia, tudo parecia extremamente claro e eu me sentia no caminho da luz.

Eu era sensacional e enchia o peito de orgulho pra falar de mim.

Ok. Estou pronta. Encontrei um relacionamento que parecia bom, no qual parceria era a palavra de ordem e eu estava amando todo esse mundo novo, onde o segredo da atração de dias lindos e felizes, um após o outro funcionava plenamente.

Até que comecei a me perder de mim. Em pequenas práticas cotidianas passei a deixar de lado o meu querer e me perder no mundo novo: a vida do outro.

Nunca fui forçada a nada, mas passei a me perder lentamente tentando ser a parceira ideal, a companheira pra tudo, aquela que: “Vamos? Vamos!”

Nesse meio tempo muitas coisas aconteceram comigo, problemas de família, amizades que se afastaram quando eu mais precisei. E fui me perdendo novamente na pessoa que estava mais próxima, me misturando com o mundo novo, bonito e colorido que estava ali. Só esqueci que não era o meu mundo. Não eram as minhas cores, eu estava sendo moldada sem me dar conta e por um momento parei.

Parei pra refletir sobre mim, sobre o quanto eu estava confusa e triste comigo, sobre como a vida parecia do avesso e os planos antes tão claros haviam perdido o sentido.

Me olhei no espelho e encontrei milhares de defeitos que precisavam ser corrigidos. Eu já não era boa o bastante pra ele, nem pra mim, nem pra ninguém.

O nó na garganta estava de volta.

Mas e agora, o que fazer? Nunca poderei me relacionar com ninguém? Não faz sentido me isolar. Preciso aprender a lidar com isso. Cicatrizar a ferida e saber me exercer estando com outra pessoa.

Um novo momento de transformação.

Reiniciar conteúdos de autoconhecimento, cursos online, palestras, terapia, preciso me encontrar novamente. O que fazer?

Reinicia o ciclo. Será um sem-fim?

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